29 de jan de 2013

Existe Luto Coletivo?


No último artigo escrevi sobre a dor do luto nos casos em que as tragédias são evidenciadas pela mídia.De certa forma me posicionei, ainda que sentindo-me solidária com a dor dos familiares, mas pensando nas outras tragédias, que não são publicadas, divulgadas com tanta ênfase, porém com muita dor, as tragédias ocultas.

Hoje ao ler uma entrevista feita pelo IG, nesta manhã, a uma das principais estudiosas do Brasil sobre a morte e seus impactos, observo que o assunto é objeto de análise, sob o ponto de vista psicológico. Aqui não é abordada a questão espiritual, apenas o aspecto emocional oriundo de situações catastróficas como essa que estamos assistindo agora. Transcrevo abaixo a entrevista referida, para conhecimento e análise.
"Maria Helena é coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC e co-fundadora do Instituto 4 estações. Em entrevista ao iG, conta porque uma tragédia deste porte é tão sentida e tão vivenciada até por quem não tem nenhuma relação com as vítimas.
Fernanda Aranda, iG São Paulo | 29/01/2013 05:00:00 
A dor solidária, afirma a especialista, precisa de atenção de psicólogos, psiquiatras, familiares e de toda rede de saúde do País.iG: Pela reação das pessoas, de todos os cantos do País, a sensação é de que o Brasil todo foi afetado pelo incêndio de Santa Maria. É uma percepção correta?Maria Helena Pereira Franco: Sim, não é uma percepção exagerada. É o que chamamos de luto coletivo, um fenômeno que existe e é muito forte. Esta solidariedade que aparece nos momentos de dor é o que promove a mobilização em massa, o número expressivo de voluntários dispostos a ajudar e de pessoas impactadas, ainda que sem relação alguma com as vítimas. Os efeitos chegam muito perto de toda a população porque a tragédia se deu em uma situação corriqueira.
São muitas perguntas não respondidas: por que meu filho estava naquela festa? Como uma classe inteira de uma faculdade vai voltar às aulas após tantos alunos mortos?Neste caso de Santa Maria, por exemplo, todo mundo vai ou já foi a festas no final de semana, tem filhos ou amigos que frequentam estes ambientes. Há uma projeção de que poderia ter acontecido com qualquer um. A dor é projetada.iG: Esta dor projetada pela dor do outro pode ser sentida de fato? Pode ser gatilho para despertar depressão ou ansiedade mesmo nos espectadores da tragédia?Maria Helena: Não necessariamente, mas pode sim. Se por exemplo você foi um sobrevivente de um acidente de grande porte que aconteceu há muito tempo ou perdeu alguém em uma situação de tragédia, os efeitos no espectador podem ser mais intensos. Podem fazer reviver a sensação de impotência, da impossibilidade total de fazer algo. Se não há esta relação tão íntima com as perdas em tragédias, as sequelas podem ser mais amenas. Mas tudo depende de como as perdas ao longo da vida foram enfrentadas e agora são canalizadas nesta projeção.
iG: Alguns estudos realizados em regiões que viveram grandes tragédias, (como o tsunami na Indonésia e o atentado às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos) mostraram que anos depois o número de casos de depressão e outros transtornos de comportamento se multiplicaram. Por quê?Maria Helena: Porque as tragédias deixam um campo fértil para os transtornos depressivos, as crises de ansiedade, o abuso de substâncias químicas. E tudo isso, não necessariamente, é desencadeado imediatamente. Sem banalizar a dor imediata, é esperado que nos primeiros 30 dias os envolvidos experimentem um estresse agudo. São muitas perguntas não respondidas: por que meu filho estava naquela festa? Como uma classe inteira de uma faculdade vai voltar às aulas após tantos alunos mortos? Se existir um bom trabalho com este público, aos poucos, as pessoas retomam a vida. Mas, além do atendimento imediato, estas situações requerem cuidados contínuos. Para evitar que os problemas depressivos se cronifiquem com o tempo ou apareçam tardiamente.
iG: Estes transtornos depressivos podem ser desencadeados como uma reação em cadeia?Maria Helena: Pode ser generalizado, porque a rede afetada e participante é muito ampla. É a mãe da vítima, o amigo, os familiares distantes, os socorristas, os profissionais que atuam nesta tragédia, as autoridades que precisam tomar decisões rápidas, as pessoas que assistem pela televisão. Ainda que haja uma hierarquia de envolvimento diferente, os afetados são inúmeros. Por isso, os cuidados devem ser generalizados.
iG: A senhora costuma dizer que é preciso ter uma educação para a morte. Esta educação é válida até para situações de tragédia como esta, em que a morte, de forma mais latente, não é esperada?Maria Helena: Sem dúvida. Não gostamos de falar em morte e não fazemos isso ao longo da vida. Mas precisamos incluir a educação para a morte em nossa rotina, permitir que as pessoas falem sobre o tema, exponham suas emoções, sem julgamentos e sem teorias prontas. Educar para a morte é um recurso, inclusive, para prevenir o adoecimento tardio resultante de uma tragédia como esta de Santa Maria."

É evidente que aqui não estão abordados os aspectos espirituais, porém há que se pensar nessa questão sendo olhada por esse âmbito, nos questionamentos que surgem, nos conflitos emocionais e até distúrbios gerados comprometedores de saúde mental e emocional.


Transformando Nossas Vidas

Ieda Perez





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